Guerra é Paz
“Há aqueles que dizem que a guerra é egoísta, e que os que a estudam buscam apenas aumentar sua própria glória e posição. Eles são tolos e levam Rokugan à ruína.Digo-lhe agora que nada é mais importante do que o estudo da guerra. Ela deve ter primazia na mente de um samurai todo o tempo. A guerra é mais sublime dos estudos, pois protege todos os outros.
Se um líder não comanda seus generais ao estudo da guerra, eles serão incertos no campo de batalha, e hesitarão quando decisões importantes devem ser feitas. Isto fará um exército falhar, e quando um líder de um exército falha, seu único momento de incerteza causa as mortes de muitos milhares.
E quando o exército é derrotado e destruído, o exército de nosso inimigo marchará sobre os que pensaram que o estudo da guerra era egoísta, e cortará suas cabeças de seus corpos e os deixará apodrecendo no pó.
Este é o caminho do mundo, e os que creem no contrário estão se iludindo.”
– Liderança, Um ensaio por Akodo, o Caolho
Conceito: Campanha do Leão
Tema: Ação e Consequência
Ao menos em tese, pois, desde que o Leão adentrou na cidade, diplomatas tanto da Garça quanto do Escorpião têm agido nas sombras para tentar minar ao máximo os esforços de Riyoshi. Seus maiores opositores são Doji Takeshi, um brilhante embaixador Garça que possui algumas ligações com as famílias imperiais, além de dispor de exímios cortesãos e duelistas que lhe garantiriam um rápido controle sobre a corte de Beiden; e Shosuro Korahime, a anfitriã dos espetáculos artísticos da cidade, que goza de grande prestígio na sociedade, além de possuir a amizade dos mais variados tipos em diversas esferas sociais, lhe garantindo um impressionante leque de possibilidades em seus jogos de intrigas. Uma aliança entre os dois clãs, mesmo que passageira, teria um potencial absolutamente devastador para o Leão, portanto, é extremamente plausível.
Por enquanto, Riyoshi se sente seguro pois sabe que a governadora Katsuko não tomará qualquer decisão importante em relação à província até que se sinta confiante. Tendo o tempo ao seu favor, ele semeia a incerteza, buscando convencê-la de que nenhum dos demais clãs está apto para assumir o governo. Enquanto isso, ele procura seus próprios meios de adquirir uma reivindicação legítima à província, por mais improvável que seja, afinal, enquanto forças de paz, o Leão está oficialmente fora da disputa por Beiden – e sequer cogitar isso seria desonroso, uma traição à confiança depositada pela família Miya. De fato, Seppun Benje se mostra atento às intenções do Leão e, dada a sua proximidade com Katsuko, é visto por Riyoshi como um potencial adversário político, caso suas suspeitas se confirmem.
Um dos possíveis caminhos para encontrar esta pretensa reivindicação seria através dos registros históricos de antigos governadores, averiguando seus casamentos e laços familiares em busca de uma linha de sucessão coerente cujo herdeiro seria alguém de sangue Leão. Este caminho, no entanto, encontrou um obstáculo inusitado na figura de Asako Yohama, um bibliotecário em vias de se aposentar que luta ferrenhamente para impedir que qualquer um acesse tais registros. Riyoshi já tentou abordagens amigáveis e hostis, mas o velho homem é implacável. Não fosse a boa relação do fênix com a irmandade de Shinsei, há tempos Riyoshi já teria ordenado seus homens a adentrar à força no templo, contudo, por mais pragmático que seja, a profanação de um local sagrado traria apenas desgraça para si, para sua família e para o seu clã, além da inevitável fúria de Katsuko e da população de Beiden.
Enquanto tentam lidar com seus opositores políticos, outras adversidades se mostram cada vez mais presentes para as forças pacificadoras do clã Leão. Criminosos agem sorrateiramente no interior da cidade, corrompendo sua estrutura. Os oficiais acreditam que essa ação tem relação direta com a estrutura comercial, o assim chamado Conselho Mercante, afinal, a ganância pela riqueza tem o poder de corromper o coração dos homens tal qual a mácula corrompe a alma. As forças de paz têm realizado batidas no mercado e nos cortiços da chamada “Toca”, o que resulta em algumas apreensões e espancamentos corretivos, contudo, eles têm dificuldade de encontrar e lidar os grandes bandidos, contrabandistas e traficantes de ópio.
Fora do âmbito urbano, bandidos e saqueadores estão se tornando mais ousados, atacando e pilhando vilarejos pela província. Não se sabe exatamente até que ponto estes bandidos podem estar sendo usados para despistar ataques de batedores Daidoji ou Bayushi, mas a verdade é que a população camponesa está desamparada. Por mais capacitados que sejam os 200 homens que compõem a força do Leão, eles não possuem um efetivo numérico para cobrir toda a extensão da província sem comprometer a segurança da cidade. Tal demanda atraiu um acampamento de caçadores de recompensa Tsuruchi para a região, as Flechas de Koutaro. Eles têm se mostrado úteis, porém, apenas o tempo dirá se eles se tornarão apenas mais um estorvo.
Um problema menos evidente, mas não menos preocupante é o crescente clima de descontentamento que tem surgido entre alguns setores mais elevados da sociedade. Tal desconforto é fruto de murmúrios questionadores vindos de críticos à presença da forças pacificadoras, muitos deles nascendo de poetas, artistas, monges e políticos opositores, que não concordam com o que eles chamam de “forças de ocupação”. O Leão rebate tais alegações, afirmando que tal sentimento só poderia surgir no coração dos corruptos e daqueles que se envolvem com negócios escusos, ilegais ou moralmente questionáveis, afinal, como defensores da ordem, obviamente sua presença desagrada aos que não possuem honra. É de se imaginar que, cedo ou tarde, haja algum conflito entre os questionadores e os pacificadores – o que de fato já ocorreu, quando uma jovem Matsu ficou extremamente ofendida com a apresentação de um poeta Kakita, que expôs sua crítica velada durante um sarau promovido por Shosuro Korahime. A situação desenrolou para um duelo de primeiro sangue, em que um campeão Kakita representou o artista e obteve a vitória sobre a Matsu, encerrando o assunto.
Contextualização
O Leão reina soberano em Beiden, sendo assim, o que poderia ameaçar este reinado? Essa foi a pergunta que eu me fiz ao elaborar este cenário e, no fim, cheguei a conclusão de que as coisas não são, necessariamente, tão simples para a Mão Direita do Imperador.Enquanto a campanha da Garça envolve a luta para se reerguer de uma situação completamente desfavorável, a campanha do Leão explora o polo oposto – eles lutam para manter as rédeas da situação, sofrendo pressão de todos os lados, afinal, por mais que se autodenominem “pacificadores”, a presença do Leão em Beiden é, na prática, a de um exército em ocupação, cujos inimigos não medirão esforços para desmoralizar e deslegitimar.
Logo, enquanto a campanha sob a ótica da Garça apresenta um Doji Takeshi de moralidade e lealdade dúbias, sob a perspectiva do Leão ele assume a face de um exímio e experiente diplomata que possui poucos, porém preciosos (e eficientes), recursos. De forma similar à campanha da Garça, o Escorpião faz o jogo da ambiguidade, oscilando entre a amistosidade e a hostilidade, sempre deixando em dúvida suas reais intenções. Além deles, a campanha Leão possui um outro antagonista principal: os monges de Asako Yohama. Ele usará todos os meios cabíveis para impedir que entrem nos níveis superiores do templo, além de ter um grande controle da opinião pública. Em última instância, Seppun Benje, yojimbo da governadora, é um antagonista menor. Ele desconfia das intenções de Riyoshi e, com isso, suspeita de todas as ações de personagens Leão, podendo se tornar um oponente tão perigoso quanto Takeshi, pois acima de tudo possui a amizade de Katsuko.
A campanha centrada no Leão também é uma boa oportunidade para histórias mais “aventureiras”. Como estão encarregados de manter a paz, fazer patrulhas e combater o crime, os personagens terão muita oportunidade para entrar em ação. Felizmente, o Leão dispões de uma vasta gama de bushis e trilhas diversas para tal, em especial, a trilha do Guardião Ikoma é bem propícia para os patrulheiros da província, mas praticamente qualquer escola ou trilha é cabível – salvo talvez os Mestres de Feras, mas nada que uma boa conversa entre o Mestre e os Jogadores não resolva. Tendo em mente que Riyoshi deseja obter uma vitória militar na província e que legiões sob a liderança da Shireikan Matsu Harumi estão alocadas na Vigília de Beiden, ao norte da passagem, existe um bom campo para personagens com foco em batalhas e comando de tropas.
Além do paradigma político, o grande mote deste cenário é o da ação e reação, em especial as ações que afetam a opinião da sociedade local em relação à força de paz. Conforme a campanha progride, o Mestre pode julgar as ações dos personagens e elaborar reações apropriadas, tendo em mente que os opositores usarão suas falhas, seus abusos, excessos e erros de julgamento, para fomentar seus discursos. Contudo, este escrutínio não se limita aos personagens dos jogadores, recaindo também sobre todos os membros do clã Leão em Beiden, sendo assim, mesmo que os jogadores sejam safos o suficiente para não se envolver em polêmicas, o mesmo não pode ser dito a respeito do demais integrantes do clã que em sua maioria são jovens samurais, muitos deles inexperientes, imprudentes, impulsivos e orgulhosos. Explorar de uma forma negativa os estereótipos do clã Leão pode ser uma ótima oportunidade para os personagens questionarem suas próprias convicções, dando possibilidades para se trabalhar com a temática do drama samurai envolvendo conflitos de honra. O objetivo final do Mestre deve ser o de fazer os jogadores terem de escolher entre preservar a confiança depositada nas forças de paz, ou preservar seu orgulho, sua honra, sua moral, suas amizades e lealdades, ou seja, manter a opinião pública positiva deve ser algo desafiador – desta forma, um Omoidasu pode vir a se tornar indispensável para o grupo de jogadores.
“Mas, por que um samurai se importaria com isso?”, alguns podem se questionar. Por mais que um samurai não precise se importar com a opinião da sociedade, apenas um tolo ignoraria o poder da insatisfação popular, principalmente quando ela é alimentada por seus inimigos. A princípio, a população heimin dificilmente tomaria qualquer atitude hostil contra os pacificadores, contudo, alguns atos de rebeldia podem surgir, principalmente vindos de grupos menores e mais organizados, como monges, kajinin, comerciantes, os discípulos de Hyogo e a família Koga. A postura insolente de um destes grupos inevitavelmente resultará em uma represália, que pode criar mártires para os opositores. Se as tensões aumentarem, um grupo pode se exaltar e levantar armas contra os pacificadores, o que apenas tornariam as coisas ainda mais difíceis. A família Koga certamente agiria nas sombras contra samurais especialmente cruéis com o povo camponês. Seguindo essa progressão de eventos, imagine se os Leões decidirem agir implacavelmente contra aqueles que se levantarem contra eles, o que a governadora faria caso camponeses fossem executados aos montes, um levante de rebeldes tomasse as ruas, ou mesmo se um monge ateasse fogo em seu próprio corpo como forma de protesto? O impacto das ações das forças de paz na sociedade vai ditar se Katsuko permitirá que eles continuem a agir – caso ela perceba que eles não possuem mais utilidade, ou pior, que trazem mais malefícios do que benefícios, ela pode exigir que os oficiais cometam sepukku e substituir esta força por tropas Imperiais (um caminho que agradaria muito a Seppun Benje).
Ideias para Objetivos de Curto Prazo
Adentrar na BibliotecaRiyoshi acredita que pode encontrar os registros de algum casamento no passado que possa legitimar um sucessor à disputa de Beiden com o sangue Leão. As bibliotecas Ikoma certamente têm tais registros, assim como as bibliotecas imperiais, contudo, além da distância, tais arquivos são incomparavelmente maiores, sendo assim, levaria-se um tempo e um esforço monumental para se averiguar essa possibilidade. No entanto, se tais registros existirem, certamente terão uma cópia na biblioteca de Beiden. Caso os jogadores consigam adentrar nos níveis superiores do templo de Tangen, poderão buscar tais documentos.
Controle de Danos
Um samurai Matsu se envolve em um duelo ilegal, um Ikoma se envolve em um escândalo em uma casa de chá, um Akodo mata camponeses por alguma ofensa à sua honra… Não interessa se a situação é real ou foi forjada, o fato é que as coisas fogem ao controle e os personagens precisam intervir para que não piorem. Eles podem estar presentes no momento do ocorrido ou não, mas precisarão lidar com suas consequências de alguma forma, normalmente tendo que escolher entre apoiar o membro do clã em apuros, possivelmente sacrificando sua honra ou sua face. A depender das repercussões, estes casos podem afetar diretamente na maneira que as pessoas enxergam as forças de paz, afetando diretamente a opinião pública.
Enfrentar Bandidos
Saqueadores de fazendas, bandidos de estrada, sabotadores. Estes ganchos são perfeitos para personagens que buscam um pouco de ação e um método rápido de conseguir melhorar a opinião pública. Porém, vez ou outra, o Mestre deve colocar os personagens em uma situação de dilema moral – o que fazer quando o vendedor de ópio, morador da Toca, é um idoso com muitos netos que dependem dele para viver? O que fazer quando aquele kajinin, um extorsionista foragido, aparece para apagar o fogo do armazém? O que fazer quando a caravana que transporta objetos roubados pertence a mercadores que trabalham para um dos maiores aliados das forças de paz, que inclusive forneceu os cavalos que você cavalga neste momento?
Fortalecer as Forças de Paz
Os pacificadores são uma ferramenta eficaz para o controle da cidade, contudo, são limitados em números. Os jogadores podem buscar justificativas para que a governadora permita reforços para as forças. Tais justificativas podem vir como o resultado de bons serviços prestados, ou de uma crescente sensação de insegurança na província, causa provavelmente por um aumento do número de criminosos, ou mesmo do fortalecimento do discurso “anti-ocupação”, inflamando uma possível revolta. Contudo, o Mestre deve estar atento pois, da mesma forma que podem representar a necessidade de um aumento significativo do efetivo das forças de paz, também podem evidenciar a sua incompetência.
O Inimigo de meu inimigo
Uma aliança entre a Garça e o Escorpião seria extremamente danosa para os esforços do Leão na província, portanto, os personagens devem fazer tudo em seu alcance para evitar que isso ocorra. As alternativas e as oportunidades podem variar drasticamente de acordo com o desenrolar da campanha, podendo partir de um simples semear de discórdia, até mesmo uma ousada (e improvável) aliança com uma das facções.
Silenciar os Opositores
Alguns personagens da província estão por detrás das críticas à presença do Leão em Beiden. Os personagens podem tentar descobrir quem são os principais semeadores destes pensamentos e tentar persuadi-los a se calar. Caso obtenham êxito, poderão perceber que tais discursos se tornarão cada vez mais escassos, contudo, devem tomar cuidado com os meios empregados para atingir seus fins, pois qualquer equívoco pode agravar ainda mais a situação – opositores hostilizados, ou assassinados podem se tornar mártires, dando ainda mais poder aos seus discursos.
Ideias para Objetivos de Longo Prazo
Assumir o Controle da Cidade de BeidenO mais improvável e o mais cobiçado. Com uma reivindicação plausível e o apoio político adequado, Riyoshi pode reclamar o governo da província para o clã Leão. Os jogadores precisarão obter diversas vitórias políticas para isso, contrariando os interesses de todas as facções envolvidas no conflito, inclusive os Miya que enxergam a presença do Leão como uma força policial para mediar o conflito. As bases devem estar devidamente sólidas para que Katsuko aceite essa reivindicação.
Garantir a Soberania Militar do Leão
O exército do Leão possui os números, o treinamento e a disposição para conquistar Beiden a qualquer momento, contudo, não tem a permissão para tal. Essa é a maior frustração de Ikoma Riyoshi, que almeja que seu nome seja imortalizado através desta conquista. Os jogadores devem encontrar uma boa justificativa para que Matsu Harumi traga suas legiões para a província com a aprovação da governadora. Tal justificativa pode surgir de um possível ataque de Daidoji Sapporo, de Bayushi Goro, ou mesmo de uma batalha entre ambos os exércitos. O mesmo pode ocorrer caso a província esteja à beira da anarquia, principalmente se a inexperiente Miya estiver pressionada. Uma vitória militar, a conquista de Beiden, seria o desfecho apropriado para a carreira de Ikoma Riyoshi, e colocaria o nome de todos os envolvidos nesta façanha eternamente nos grandes Salões dos Ancestrais.
Saudações, samurais
Quase um mês desde de minha última postagem.
De fato, perdi as contas de quantas vezes editei e reeditei este texto, rs
Inicialmente, imaginei o conflito social criado por uma polícia do Leão, em uma cidade culturalmente do Escorpião, me baseando em alguns casos históricos de nosso mundo, como a presença americana no Vietnã – o que é bem propício, ao meu ver, se compararmos a disparidade da força do clã Leão em relação a todas as demais facções envolvidas em Beiden.
Espero ter semeado algumas boas fontes de conflito para dificultar a vida de seus jogadores.
Nos vemos em breve, com mais ideias de aventuras.
つづく
De fato, perdi as contas de quantas vezes editei e reeditei este texto, rs
Inicialmente, imaginei o conflito social criado por uma polícia do Leão, em uma cidade culturalmente do Escorpião, me baseando em alguns casos históricos de nosso mundo, como a presença americana no Vietnã – o que é bem propício, ao meu ver, se compararmos a disparidade da força do clã Leão em relação a todas as demais facções envolvidas em Beiden.
Espero ter semeado algumas boas fontes de conflito para dificultar a vida de seus jogadores.
Nos vemos em breve, com mais ideias de aventuras.
つづく










